sexta-feira, 31 de maio de 2013

Sermão do segundo domingo da Quaresma

Se Deus fizesse alguma vez o oficio de estatuário, que perfeita e admirável sairia uma imagem das suas mãos? Mas esta suposição que eu apreendia só possível, no Profeta Zacarias a leio atualmente efetuada. Mostrou Deus ao Profeta uma misteriosa pedra esculpida, e disse-lhe gloriando-se da obra que ele mesmo fora o artífice: Ecce ego caelabo sculpturam ejus. Escultura aberta pela própria mão de Deus, e de que o mesmo Deus se gloria! Vinde almas e atendei: sem dúvida, aqui há muito que ver. É verdade, e já em prova disso adverte o texto, que sobre esta pedra estavam sete olhos, não entalhados, ou feitos da mesma Pedra (dizem Lira, Vatablo, Sanches e outros), senão de fora olhando atentamente como admirados dos primores de seu artifício: Quem septem cernunt oculi, verte o Caldeu, e concorda a exposição do Beato Alberto Magno: Septem oculi, idest septem circunspectiones, que esta pedra respondia a sete aspetos, ou era objeto de sete diferentes vistas.

Que misteriosa pedra seja esta, dizem comumente os S.S. P.P. que é Cristo Crucificado, porque primeiramente este Senhor, em sua Paixão Sagrada (segundo profetizara Davi e interpretou o mesmo Cristo) 1, foi pedra reprovada do seu povo, e escolhida por Deus para Capitel do místico edifício de toda a sua Igreja. Quantos golpes, quantas chagas, quantos tormentos padeceu no corpo e na alma, tantos lavores se esculpiram nesta pedra; e suposto que as mãos de seus inimigos foram os instrumentos, todavia à de Deus se atribui a obra, sem cuja permissão nenhum golpe poderia tocar na pedra: Sculpture (diz. S. Gregório) nihil aliud fuerunt, quam foramina vulnerum ejus, quorum clavi, spinae, et lancea instrumenta Divini artificis fuerunt2. Mas que sete olhos são estes, que atendem a escultura de Pedra, ou que sete aspetos diferentes são os que nela se representam? Se me é lícito proferir, o que nesta parte sinto, parece-me que toda a alma devota que atentamente empregar os olhos em Cristo Crucificado, há de descobrir neste admirável objeto sete objetos os mais relevantes que a Religião Cristã professa, e em que toda ela se cifra, são estes os seguintes: primeiro, a graveza do pecado; segundo, a terribilidade do inferno; terceiro, a grandeza da Glória; quarto, o valor da Alma; quinto, a esperança do perdão; sexto, o caminho da virtude; sétimo e último, o excesso do amor Divino. Torno a dizer: sabeis, Católicos, que é o que vemos quando vemos a Cristo Crucificado? Vemos uma horrorosa sombra de fealdade do pecado; vemos uma comparação significativa das penas do Inferno; vemos uma medida certa das grandezas do Céu; vemos o preço justo do valor de uma alma racional; vemos um fortíssimo argumento da esperança de nossa salvação; vemos um livro compendioso dos ditames da perfeição Evangélica; e vemos um retrato vivo das finezas do amor divino. Eis aqui sete aspetos diferentes, que se descobrem nesta Pedra; eis aqui sete vistas, ou circunspecções, com que devemos atender à sua escultura, que bem mostra ser da mão do artífice Supremo: Super lapidem unum septem circunspectiones: ecce ego caelabo scumlpuram ejus.

                                                                          (Padre, Manuel Bernardes)

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