Sermão do segundo domingo da Quaresma
Se Deus fizesse alguma vez o oficio de
estatuário, que perfeita e admirável sairia uma imagem das suas mãos? Mas esta
suposição que eu apreendia só possível, no Profeta Zacarias a leio atualmente
efetuada. Mostrou Deus ao Profeta uma misteriosa pedra esculpida, e disse-lhe
gloriando-se da obra que ele mesmo fora o artífice: Ecce ego caelabo sculpturam ejus.
Escultura aberta pela própria mão de Deus, e de que o mesmo Deus se gloria!
Vinde almas e atendei: sem dúvida, aqui há muito que ver. É verdade, e já em
prova disso adverte o texto, que sobre esta pedra estavam sete olhos, não
entalhados, ou feitos da mesma Pedra (dizem Lira, Vatablo, Sanches e outros),
senão de fora olhando atentamente como admirados dos primores de seu
artifício: Quem septem cernunt
oculi, verte o Caldeu, e concorda a exposição do Beato Alberto
Magno: Septem oculi, idest septem
circunspectiones, que esta pedra respondia a sete aspetos, ou era objeto
de sete diferentes vistas.
Que misteriosa pedra seja esta, dizem comumente
os S.S. P.P. que é Cristo Crucificado, porque primeiramente este Senhor, em sua
Paixão Sagrada (segundo profetizara Davi e interpretou o mesmo Cristo) 1, foi pedra reprovada do seu povo, e
escolhida por Deus para Capitel do místico edifício de toda a sua Igreja.
Quantos golpes, quantas chagas, quantos tormentos padeceu no corpo e na alma,
tantos lavores se esculpiram nesta pedra; e suposto que as mãos de seus inimigos
foram os instrumentos, todavia à de Deus se atribui a obra, sem cuja permissão
nenhum golpe poderia tocar na pedra: Sculpture (diz. S. Gregório) nihil aliud fuerunt, quam foramina vulnerum ejus, quorum clavi, spinae,
et lancea instrumenta Divini artificis fuerunt2. Mas que
sete olhos são estes, que atendem a escultura de Pedra, ou que sete aspetos
diferentes são os que nela se representam? Se me é lícito proferir, o que nesta
parte sinto, parece-me que toda a alma devota que atentamente empregar os olhos
em Cristo Crucificado, há de descobrir neste admirável objeto sete objetos os
mais relevantes que a Religião Cristã professa, e em que toda ela se cifra, são
estes os seguintes: primeiro, a graveza do pecado; segundo, a terribilidade do
inferno; terceiro, a grandeza da Glória; quarto, o valor da Alma; quinto, a
esperança do perdão; sexto, o caminho da virtude; sétimo e último, o excesso do
amor Divino. Torno a dizer: sabeis, Católicos, que é o que vemos quando vemos a
Cristo Crucificado? Vemos uma horrorosa sombra de fealdade do pecado; vemos uma
comparação significativa das penas do Inferno; vemos uma medida certa das grandezas
do Céu; vemos o preço justo do valor de uma alma racional; vemos um fortíssimo
argumento da esperança de nossa salvação; vemos um livro compendioso dos
ditames da perfeição Evangélica; e vemos um retrato vivo das finezas do amor
divino. Eis aqui sete aspetos diferentes, que se descobrem nesta Pedra; eis
aqui sete vistas, ou circunspecções, com que devemos atender à sua escultura,
que bem mostra ser da mão do artífice Supremo: Super lapidem unum septem circunspectiones: ecce ego caelabo scumlpuram
ejus.
(Padre, Manuel Bernardes)
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